Nenhuma forma de violência justifica outra

A guerra não é definida por quem a inicia, mas por quem a torna impossível de terminar. A humanidade não detém as guerras tomando partido emocional ou ideologicamente; ela as detém identificando as causas reais que as produzem e avaliando se essas causas pesam mais do que a utilidade da própria guerra.

No mundo moderno, sob uma tempestade de informações que vêm de todas as partes, exaltando emoções e reforçando conflitos colaterais de toda espécie, as causas reais tendem a se diluir. No entanto, identificá-las, embora não seja fácil, continua sendo possível para aqueles que sabem deduzir inteligentemente as informações.

Por exemplo: nestas semanas de guerra, a destruição da infraestrutura civil tem sido massiva, com cidades inteiras parcialmente devastadas; as mortes de civis já se contam aos milhares, e até dezenas de milhares, dependendo das regiões e das fontes; e, ainda assim, não se observa uma correlação proporcional com objetivos concretos e verificáveis que expliquem tal nível de destruição.

Ou seja: a magnitude do dano humano e material supera amplamente qualquer resultado tangível, o que indica que a guerra se sustenta mais por sua própria dinâmica de poder do que por causas reais identificáveis nos fatos. Assim, quando o dano supera amplamente o que pode ser explicado, a causa já não está nos fatos, mas simplesmente na dinâmica do poder.

Digo isso porque, neste conflito, diferentemente de outros, a guerra não atingiu apenas os muçulmanos, por serem seus territórios, em grande parte, o cenário — embora também não seja novidade que sempre tenha atingido os cristãos, ainda que com menor reconhecimento midiático, sendo também estas terras o seu lugar de origem.

Mas o que verdadeiramente distingue este momento é que, como poucas vezes antes, o conflito atingiu o coração histórico e simbólico de tradições que compartilham uma mesma raiz: as religiões abraâmicas. Ali onde não há apenas território, mas uma herança comum, uma memória compartilhada e uma mesma origem espiritual.

Porque, diante da invasão de discursos propagandísticos que dividem e alimentam a guerra, são muito raras as vozes que apontam aquilo que une a humanidade em favor da paz.

Os territórios que hoje estão sendo devastados são a fonte física onde o ser humano expressou, pela primeira vez, a manifestação de um único Deus: o monoteísmo. De formas diferentes, talvez; incompatíveis em alguns pontos, possivelmente; mas igualmente legítimas como expressão inerente à condição humana que busca sentido, origem e transcendência.

E elas, não sem dificuldades, e não sem conflitos, souberam conviver e sobreviver ao longo da história milenar que as acompanha em um mesmo território.

Mas hoje, esta guerra superou os conflitos regionais que sempre existiram, alcançando inclusive suas próprias figuras e máximas referências espirituais, algumas já silenciadas pela violência, e outras atualmente sob ameaça.

É um sinal claro de que o conflito deixou de ser apenas territorial ou político, para adentrar um campo muito mais profundo e perigoso.

Portanto, nem cristãos nem muçulmanos estão fora do Oriente nesta guerra, estejam onde estiverem no planeta. E também os judeus, em sua dimensão de fé, têm visto reduzido seu poder real sobre seu próprio território e sobre seu destino.

Não existem guerras santas — não podem existir sob nenhum critério — e menos ainda quando se tornam multilaterais, porque, no fundo, todos cremos em um único Deus para todos.

Mas são homens sem Deus aqueles que hoje atacam os homens de Deus, seja qual for a fé que professem; homens que, em nome do poder, esvaziaram de sentido aquilo que dizem defender.

Como cristã, lembro, enquanto escrevo, as palavras do Evangelho: ‘sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas’ (Mt 10,16), e também: ‘pelos seus frutos os conhecereis’ (Mt 7,16), porque não basta dizer — é necessário manifestar a verdade nos fatos.

E é isso que me move a escrever desta forma: não como um simples lamento diante da dor do que está acontecendo, nem como um manifesto unilateral pelo que nos acontece a nós, cristãos, mas como um chamado a todos.

Porque estamos todos em um mesmo planeta, habitamos uma única casa na qual Deus nos colocou a todos; e creio que esse Deus é um só e é para todos.

E ninguém — nenhum poder, nenhum homem — tem o direito de ambicionar ou se apropriar da casa originária de seus irmãos, nem de justificar a morte, a destruição ou o submetimento em nome de qualquer justiça que possa ser chamada assim, e reconhecida por aqueles que verdadeiramente creem em Deus, princípio e fonte eterna de toda Vida, Paz e Misericórdia.

— Irmã Makrina